POSTAGENS

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O ESTADO DE QUEM ESTÁ SÓ

Estou aqui, refugiado nas entrelinhas e lembranças de meu pensamento atormentado! Sinto-me só, completamente só, abandonado e trapaceado pelas coisas lenhosas do passado! Meus amigos são a causa de minha amargura, dano e sofreguidão! Um dia, simplesmente desapareceram, fugiram de mim, esquivando-se de minha melhor companhia! Estou desbotado, apagado e cru por causa deles, e não se tem qualquer livramento ou sentido na vida! Nunca fora assim, até o soar da segunda primavera! Minha casa era hospitaleira, show de exposições, ponto de parada, de aconchego e de entretenimentos! Nos reuníamos nos finais de semana, sobre as graças de um solzinho fresco e tentador, ou debaixo de uma chuva fresca e persistente! Naquele tempo, não sofria repulsas e nem tínhamos paradas para descanso; feito de comum acordo, em total sintonia e harmonia! Tudo corria bem, até quando minha bebida agradável e minha comida saborosa deixaram de existir! Agora, estando na ruína e carente de solidariedade, sofro rejeições dos mesmos que antes me homenageavam! O que vejo deles é pura esnobação, passeando nas ruas com seus carros importados e com seus puxa-sacos engomados! Nenhum deles se lembra do que éramos antes: um conjunto de raízes com propriedades semelhantes! Por isso sinto-me triste e só, preso ao meu vazio intermitente e ao meu esconderijo subterrâneo! Queria reivindicar-lhes o retorno de nossa amizade, mas sei que não posso trazê-los de volta sem mostrar-lhes grandes recursos! Se o fizesse, estabeleceria um preço alto demais, tendo ciência das minhas deficiências básicas e das minhas condições precárias! Tenho que conformar que os perdi para o mundo, para as luxúrias e para os benefícios de outros! Hoje, o que revelo-lhes é pobreza e muita miséria, não esperando deles qualquer serventia ou tipo de compaixão! Sei que esse maldito dinheiro tem o poder de comprar o homem e os seus sentimentos, qualidades e sensibilidades! Mas, mesmo assim, não me renderei à ele e nem às suas práticas subornadoras! Mesmo estando só, frágil e rejeitado, tenho que ser firme e mostrar que sou prudente! Meus descendentes, que verdadeiramente me amam, dependem de mim, tanto na riqueza como na pobreza! Terei que inspirar simpatia e confiança aos de minha mesma árvore genealógica! Por isso, não vacilarei e nem me humilharei perante meus amigos mal agradecidos! O que farei, farei esperando nada em troca, sem nenhuma compensação física, psicológica ou material! Continuarei zelando por eles, para que não sofram rejeições dos de sua nova facção temporária; e que no dia de suas penúrias, escassez ou misérias, não tenham que se refugiar à frustrações, a solidões e a esperas!!
                                                                                       Gláucia Cardoso